O temporal que deixou ao menos 22 mortos na Zona da Mata, em Minas Gerais, entre segunda-feira (23) e a madrugada desta terça-feira (24), foi marcado por um fenômeno conhecido como supercélula — um sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical. Na região, formaram-se nuvens de até 16 km de altura, que provocaram 209,4 milímetros (mm) de chuva nas últimas horas. Em Juiz de Fora, morreram 16 pessoas; em Ubá, seis.
A meteorologista Andrea Ramos explica que o diferencial deste episódio esteve na organização das nuvens em uma estrutura mais intensa. Imagens de satélite mostraram forte desenvolvimento vertical, com topos muito frios — característica típica de nuvens cumulonimbus, aquelas nuvens altas, volumosas, muitas vezes com topo em formato de “bigorna”.
“Foi uma supercélula que atuou e proporcionou toda essa situação. São nuvens do tipo cumulonimbus com grande desenvolvimento vertical. Elas podem atingir de 14 a 16 quilômetros de altura. Quanto mais vermelho aparece na imagem de satélite, maior a presença dessas nuvens”, explicou a especialista.
Além do calor e da umidade elevada, o mapa meteorológico indicava a presença de um cavado (um alongamento de baixa pressão) próximo à região, além de uma frente fria atuando no oceano. Essa configuração ajudou a canalizar umidade e intensificar as áreas de instabilidade.
Ramos afirma que a sobreposição desses sistemas aumenta o potencial de chuva severa. “Havia calor, muita umidade e a presença de um cavado. Quando se soma isso à convergência de umidade vinda da Amazônia e à frente fria no oceano, o ambiente fica muito favorável a tempestades mais intensas. Cada sistema favorece chuva. Quando dois ou três atuam ao mesmo tempo, o potencial aumenta bastante”, explica.
Supercélula
Segundo o meteorologista Alexandre Nascimento, sócio-diretor da empresa Nottus, o acumulado nas cidades mais atingidas foi excepcional para um intervalo tão curto. Em 72 horas, os volumes variaram entre 205 e 230 milímetros, patamar que supera a média histórica mensal, que gira entre 170 e 200 milímetros.
A formação da supercélula — um sistema de tempestade de grande desenvolvimento vertical — ocorreu em um ambiente atmosférico já propício a instabilidades. O fenômeno, típico do verão, foi intensificado pela combinação de calor, alta umidade e a atuação de um cavado atmosférico, que favoreceu a formação de nuvens profundas e organizadas, segundo especialistas.
O verão é a estação mais chuvosa do ano no Sudeste, com janeiro e fevereiro concentrando os maiores acumulados. Andrea Ramos explica que essa característica sazonal já eleva naturalmente o risco de temporais.
“Primeiramente, estamos no verão. É a estação mais chuvosa quando comparada às demais. Janeiro e fevereiro, principalmente, concentram os maiores volumes do ano. Portanto, já se espera essa tendência de chuva nesse período.”
Com informações: Jornal O Tempo.


